Terça-feira, Novembro 10, 2009

"Ich bin ein Berliner"


Faz agora vinte anos que o Muro de Berlim caiu e nesse dia também eu me senti um Berlinense. Estive em Berlim (Oeste) pela primeira vez em 1974, era um jovem e recordo aqueles locais que me ficarão para sempre na memória. O muro, a plataforma em frente da Porta de Bradenburg que a permitia ver bem assim como a uma cidade cinzenta e em ruínas do outro lado, o checkpoint charlie, que separava o sector americano do sector soviético da cidade, o qual durante muitos anos preencheu o meu imaginário a ler os livros de Jonh le Carré e as conversas que invariavelmente se focavam nas questões da Liberdade e da reunificação Alemã.

Mas o que mais me marcou foi, aquando da viagem de autocarro pelo interior da RDA até Berlim, ao pararmos numa estação de serviço para as necessidades habituais e por me ter atrasado um pouco, deparo com o condutor em pânico tentando arrastar-me para a viatura. Tal devia-se ao facto de, se nos demorássemos mais do que o definido, não só teríamos que prestar declarações à polícia no último controlo da Alemanha de Leste antes de entrar em Berlim, como o mais certo era ele não poder voltar a fazer aquele trajecto.

Voltei a Berlim, agora à parte Leste, em 1976, vindo da antiga Checoslováquia e talvez por isso o controlo sobre os meus movimentos foi menos rigoroso do que para a generalidade dos ocidentais. Tive a oportunidade de estabelecer contactos e amizades que perduraram e lembro-me dos ideais e das conversas daquela que também era a minha geração. A vontade de viajar pela mundo e a possibilidade de consumir produtos ocidentais estavam no centro das reivindicações, mas embora mais ténues do que no ocidente também lá estavam as questões políticas, a vontade de assumir os erros do passado e o querer construir um futuro. A curiosidade por um Portugal que na altura tinha conseguido ultrapassar uma ditadura sem sangue, consolidava uma democracia representativa e ambicionava construir um projecto de integração europeia, era obrigatoriamente tema para os meus anfitriões.

Só voltei a Berlim depois de o Muro ter caído, mas não tenho dúvida que muitos dos valores que assumi e das opções políticas que tomei ficaram marcadas por estas viagens e pela história desse Muro.

Voltei a reviver estes temas há uns anos, por razões profissionais, aquando da Tripla Presidência da União Europeia. A Presidência Alemã fez questão numa das várias reuniões em Berlim de me convidar, e aos meus homólogos dos países da União, para uma amena conversa no Bundestag (parlamento alemão) sobre o que considerava ser o seu papel no domínio do Ambiente.

Já no final da sessão um dos meus colegas questionou se a duplicação de serviços do Ministério do Ambiente em Berlim (uma vez que os acordos de unificação obrigam a manter idêntica estrutura em Bona) não causava problemas de produtividade. A resposta veio por uma das Secretárias de Estado presente (cito evidentemente sem rigor) “Nasci na parte leste de Berlim, as últimas três gerações da minha família, aliás como as de todos alemães, todos os dias destas últimas décadas idealizaram uma Alemanha unida capaz de lhes trazer a segurança, a prosperidade, o bem-estar e um papel de relevo junto dos outros povos. Berlim simboliza esse sonho, não realizá-lo implica destruir a energia acumulada que impedirá a concretização dessa Alemanha”. A resposta foi obviamente política, mas como eu desejei que em Portugal um qualquer “Muro” tornasse as coisas assim tão claras!

Desafinado



Falemos então da inquestionável idoneidade dos heróis.
O meu primeiro contacto com Luís Palma foi tão indirecto que nem eu nem ele soubemos que era o nosso primeiro contacto: lembro-me, eu que tenho péssima memória, do cartaz da famosa campanha "Salvemos o lince e a serra da Malcata" que estava no bar do palácio da Inquisição de Évora, em cuja sala de actos eu tinha aulas (reproduzo no fim o cartaz fazendo notar como eram diferentes os tempos em Portugal, quando campanhas deste tipo tinham entre os seus promotores, uma ONG, uma faculdade e uma Direcção Geral do Estado com competências directas no assunto).
Esta campanha fez de Luís Palma, justamente, um herói da conservação em Portugal.
Mais tarde tive de lidar com a discussão sobre o que tinha acontecido ao único lince capturado em Portugal para fins científicos. Não sei, porque ouvi directamente as duas versões de pessoas presentes que me merecem consideração, se o bicho morreu ou não, nem essa é questão principal porque essa é sempre uma probabilidade quando se manipulam animais, mesmo quando não existem erros, que são outra possibilidade. Não é pois nesse aspecto que a questão se põe. As diferentes versões do que se passou são coincidentes até um momento específico: houve uma segunda anestesia ao lince. Ora esta segunda anestesia é omissa em todos os relatos oficiais do que se passou, incluindo, se a memória não me falha, num artigo científico sobre o assunto que me lembro de ter lido. Que técnicos muito novos acabados de sair da escola cometam o erro de manipular a informação por medo ou inconsciência, face à tensão instalada e à possibilidade de terem cometido um erro importante cujo conhecimento poderia ter consequências para a conservação do lince nos anos seguintes, eu percebo. Mas tenho dificuldade em manter inquestionável a idoneidade de todos e cada um dos envolvidos. Não quer dizer que não existe idoneidade e muito menos que este facto diminua o estatuto merecido de herói, mas que é razoável questionar, tenho poucas dúvidas.
Mais tarde, ou pela mesma altura em que tive de me debruçar sobre esta história que já na altura era antiga, andava eu pelo país a dar a cara proposta de rede natura, primeira fase. Uma das coisas mais dificeis nessas discussões públicas, era sustentar a dimensão de algumas áreas da rede natura 2000, claramente influenciadas pela política de conservação do lince. Lembro-me particularmente de uma sessão em Monchique, com o salão dos bombeiros a abarrotar de gente, com transmissão do debate pela Rádio Fóia, em que Carlos Tuta (cuja franqueza sempre apreciei e por quem tenho consideração), na altura Presidente da Câmara, inicia a sessão com um agressivo ataque à rede natura e ao ICNB na altura representado por mim, mais tarde uma vergonhosa intervenção do então presidente da CCDR e, com a notável excepção de Miguel Freitas, a representar a Direcção Regional de Agricultura, um ataque permanente de toda a gente e sem a menor rede de quem poderia, se quisesse, explicar que aquela proposta tinha bases técnicas explicáveis (penso que nunca agradeci a Miguel Freitas, convenientemente, essa intervenção, calma, sensata sem deixar de ser crítica no que achava que tinha razão, mas sobretudo atenta à profunda e injusta solidão da minha posição naquele momento). Apenas Humberto Rosa (retribuo com a minha solidariedade agora, que calculo que ser Secretário de Estado do Ambiente deste Primeiro-Ministro seja tortura que não se deseja ao pior inimigo) e Mário Baptista Coelho, respectivamente assessores do Primeiro Ministro e do Presidente da República de então, escreveram um artigo conjunto a defender a rede natura, sendo o silêncio dos investigadores ligados à conservação, e em especial dos que tinham influenciado a proposta em discussão, sepulcral. Não era a sua obrigação, claro, mas que isso me permite questionar a idoneidade das pessoas que só fazem intervenções públicas quando é relativamente fácil e fica bem, lá isso permite.
Mais ou menos por essa altura tive de decidir sobre o financiamento do projecto de conservação da águia pesqueira, liderado por Luis Palma. A decisão foi demorada e muito discutida. A pedra de toque da Presidência do ICNB na altura prendia-se com a discussão da relevância do projecto para a conservação da biodiversidade. A questão explica-se facilmente: havia uma população residual de águias pesqueiras que em vez de migrar nidificava em Portugal. Se fossem as mesmas águias, manter a curiosidade biológica não era prioritário. Se de facto houvesse diferença genética relevante entre as duas populações, a prioridade do projecto era muito maior. O que implicava que as populações dadoras de aguiotos tinham de ser populações residentes no Mediterrâneo (ou, eventualmente, Cabo Verde, que só mais tarde apareceu na equação). Todas as garantias foram dadas sobre diferenças genéticas (com pareceres de professores estrangeiros com nomes com certeza muito conhecidos, mas que eu desconheço), sobre a disponibilidade dos corsos para a cedência das aves e etc.. O financiamento foi desbloqueado (aliás depois de por coincidência o assunto ter ganho relevância política com várias notícias de jornal sobre o assunto, com o apoio da LPN), o dinheiro foi gasto e ainda hoje não há nenhuma tentativa de fixação de aguiotos corsos. Uma segunda tentativa de financiar uma coisa semelhante foi tentada anos mais tarde (sim, também precedida de notícias de jornal, uma campanha da LPN e por aí fora, o dejá vu) mas agora com animais vindos da Escócia (a questão da diferenciação genética estava resolvida, mas ao contrário: não havia problema dos animais virem da Escócia porque era tudo igual do ponto de vista genético).
Entretanto, depois da questão do lince ter começado a perder brilho, depois da águia pesqueira ter perdido brilho, poderia ainda falar de mais dois ou três detalhes do novo foco de investigação, mais uma vez uma espécie que motiva financiamento prioritário (embora até hoje eu não perceba porquê): a águia de bonelli.
Gostaria apenas de lembrar outros justos heróis da conservação em Portugal (e são justos heróis pelo que fizeram, não estou a ser irónico): Carlos Guerra, com enorme apoio de ONGs e jornais pelo bom trabalho feito na gestão de Montezinho, cuja idoneidade também parece que deixou de ser inquestionável; Fernando Catarino, que ainda deve ao Estado o plano de ordenamento do Boquilobo ou o levantamento dos habitats da serra da Estrela que o Estado pagou e que nunca chegou a ver.
A ideia de que a idoneidade dos heróis não deve ser questionada pelo facto de serem heróis, que beneficiou, por exemplo, Otelo Saraiva de Carvalho, é uma ideia socialmente perniciosa e é uma ideia que prejudica estes heróis: exactamente por serem heróis é que devemos ser mais rigorosos a questionar a sua idoneidade para os ajudar a serem dignos do seu estatuto.
Doutra maneira corremos sempre o risco de perceber tarde demais como é triste saber que os heróis são feitos da mesma massa que nós.
henrique pereira dos santos

o saqueador



Em Fevereiro de 2009, publiquei um post aqui sobre o "preçário de serviços de visitação do ICNB". As ditas taxas aliadas a uma fiscalização eficaz, matariam, por exemplo, a fotografia de natureza em Portugal, praticada com fins comerciais, dentro da rede nacional de áreas protegidas, ainda que esteja em crer que não fosse exactamente esse o seu propósito.

Como seria facilmente previsível, o dito preçário indignou e indigna a grande maioria dos fotógrafos de natureza profissionais e amadores, quer quando fotografam com fins comerciais quer quando o fazem com outro qualquer propósito, tão desfasado que está da realidade. A discussão foi intensa em alguns espaços da internet - ver, em Fotógrafos de Natureza de Portugal, por exemplo - um dos resultados dessas discussões foi a decisão de um grupo de 27 fotógrafos escrever uma carta ao ICNB, colocando uma série de dúvidas e mostrando-se disponível para discutir a lógica daquele preçário. A dita carta foi enviada a 16 de Março e a respectiva resposta ainda não chegou...

Interessa-me pouco discutir as obrigações legais que um organismo de Estado tem em responder às dúvidas de um cidadão em determinado tempo útil. Mas realço a forma arrogante e malcriada com que o Estado - e há exemplos destes por todo o lado - lida com os seus cidadãos. Vê-os como meros contribuintes, sem o mínimo de consideração, coisas para fazer dinheiro, potenciais alvos de saque. Mas age de uma forma acéfala, esquecendo-se que, perante a fiscalização que não tem, o cenário mais provável é o de que, a grande maioria destes fotógrafos, andem agora ilegalmente, sem dar cavaco a ninguém, fotografando em áreas protegidas, ou pura e simplesmente evitando-as, sempre que possível. Revoltados, seguramente. Porque ninguém gosta de viver assim.

Gonçalo Rosa

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

tempos difíceis


Há alguns dias atrás, um amigo meu, sentido-se pessoalmente visado por um post que eu escrevi há já algum tempo sobre a lógica de funcionamento de muitas ONGs em Portugal, teve uma longa conversa comigo. Para minha tristeza, não só não me conseguiu convencer do contrário, como reforçou as minhas convicções sobre uma certa lógica empresarial e de prestadoras de serviços que muitas vão assumindo, esquecendo a faceta de pressão e de lobby político que, pelo menos algumas, já tiveram. E lembrou-me uma passagem dos "Anos Difíceis", de António Barreto, que mora na minha mesa de cabeceira.

"Há tempos assim, em que nos querem encostados à parede, em que vivemos rodeados de círculos de fogo, em que a razão é substituída por um qualquer automatismo, em que o pensamento mecânico vive do preconceito e da dependência e em que o cliche e a banalidade substituem o esforço de raciocínio rigoroso e independente. Há tempos assim, em que é preciso estar com alguém, em que é necessário estar contra alguém, em que tudo nos empurra para ser branco ou preto, em que nos querem obrigar a vestir uma camisola, em que contrariar um amigo faz de nós seu inimigo, em que ter opinião diferente de um aliado faz de nós um adversário, em que pensar livremente é sinónimo de traição, em que reconhecer uma qualquer razão a alguém implica estar ao seu serviço e em que a autonomia de espírito é a todos os títulos condenada. Há tempos assim, em que o medo impede de pensar livremente, em que o receio leva a ceder à violência e em que o pavor obriga a curvar perante o terror."
in Anos difíceis
António Barreto, 2009
Gonçalo Rosa

Fui apanhar castanhas


Quando comecei ainda mal se via, mas logo uma espécie de pedra esquisita me chamou a atenção. Afinal era um cogumelo arredondado e sem pé visível que estava no meio do caminho.
Eu não percebo nada de cogumelos de maneira que passei como cão por vinha vindimada.
Provavelmente irritado com a minha indiferença, o mundo dos cogumelos passou o tempo todo a provocar-me com a demonstração reiterada da minha ignorância a cada passo.
Soubera eu alguma coisa do assunto e ter-me-ia vingado com um belo cozinhado.
Mas não com todos os cogumelos que me apareciam, uns tão pequeninos e com uma cor tão incaracterística que não valeriam os esforço de os apanhar. E ao outro, também mínimo mas com uma cor de quaresma que era mais que uma ameaça.
Uns cinzentos com cor de pano do chão emparelhavam bem com os outros de um leitoso sujo, bem diferentes do encarnado a laranja orgulhoso, com pintas ou sem pintas brancas em que eu ia tropeçando à medida que apanho umas castanhas pelo meio das silvas.
Como de costume lá se escapou uma chioglossa que devo ter acordado debaixo das folhas.
Não foi longe dos outros cogumelos de um amarelo limão muito pálido. Não, não eram os que tinham um anel de um amarelo quase desmaiado que depois de concentrava dum degradé que no pico do chapéu acabava no amarelo torrado. Esses estavam um bocadinho antes dos outros, que nem sei se chegavam a ser cogumelos, naquela forma de coral amarelo claro.
É triste não saber ler as histórias que em cada passo encontrava escritas sem conseguir ler. Ao contrário do que acontecia quando via os sinais do tractor por baixo de um castanheiro, tirando o meu trabalho de abrir os ouriços para chegar às castanhas.
Aí sim, eu sabia ler a história de abandono e riqueza relativa que permite deixar no campo óptimas castanhas, gordas, bonitas, com uns olhinhos piquininos a brilhar lá no fundo, como diria o João Villaret, ao contrário do que acontecia há uns anos atrás, em que haveria sempre um miúdo a aproveitar todos os restos, todas as castanhas, ou as espigas que caíam dos carros, no transporte.
E também sei ler as silvas nos combros abandonados, a levada meia desfeita com uns bons centímetros de folhas mortas, os moinhos inúteis e totalmente submersos em plantas, o laço furtivo à espera do javali, mas não sei ler o que querem dizer todos aqueles cogumelos diferentes em tão pouco espaço.
É triste ser ignorante.
henrique pereira dos santos

Domingo, Novembro 08, 2009

Áreas protegidas e alterações do clima: que fazer?

Respondendo a uma solicitação do secretariado da Conselho da Europa para a Convenção de Berna (sobre vida selvagem e habitats naturais na Europa), elaborei um relatório sobre os desafios das áreas protegidas Europeias face às alterações climáticas globais. Quem estiver interessado em consultar o relatório poderá fazê-lo aqui.

O relatório oferece um diagnóstico dos impactes potenciais das alterações climáticas sobre a biodiversidade nas áreas protegidas e áreas da Rede Natura 2000 na Europa. Uma versão ampliada deste diagnóstico será publicada (espero eu) em breve. Com base no diagnóstico são discutidas estratégias de adaptação para a biodiversidade, nomeadamente no que respeita a conservação "in situ" em áreas protegidas e em áreas da matriz circundante. Mecanismos políticos e de gestão para fazer frente aos desafios impostos pelas alterações climáticas são também revistos e discutidos.

Saliento que para fazer face aos desafios impostos pelas alterações climáticas (ou quaisquer outros), se preconizam três estratégias complementares e frequentemente tidas como pertencendo a espectros ideológicos distintos:

Regulamentos e proibições (p.e., onde se dá como exemplo a Reserva Ecológica Nacional). Esta é uma perspectiva ideológica socializante já que assume que o Estado tem o direito de intervir impondo condicionantes à gestão privada do território

Incentivos directos para conservação em terrenos privados (p.e., as medidas agro-ambientais). Esta é uma perspectiva ideológica de inspiração social-democrata em que se reconhece o papel do Estado como mediador dos interesses públicos e privados e agente de compensação dos privados pelo desenvolvimento de políticas de interesse público nas suas propriedades.

Criação e melhoria de mecanismos de mercado com vista à mercantilização de valores de conservação (p.e., a iniciativa BioBanking na Austrália). Esta é uma perspectiva ideológica de inspiração liberal em que se procura corrigir disfunções do mercado pela introdução, ainda que artificial, de valores de conservação numa "bolsa de valores".

Nos debates sobre soluções para a crise ambiental é frequente assistirmos a discussões polarizadas em função do espectro ideológico dos interventores. Passados vários anos de assistência a estes debates, em formato oral e escrito, cada vez mais me convenço que o pragmatismo ecléctico é a postura mais apropriada para resolver problemas. Nada impede que os regulamentos e proibições coexistam com estratégias de tipo liberal. Por outras palavras, nada impede que se instituam RENs e ao mesmo tempo se procurem criar mecanismos que confiram mais racionalidade ambiental ao mercado. Se o objectivo for dar centralidade à política de ambiente todos os esforços são poucos.

Um Atlas perto de si

Duas relas (Hyla arborea)


Através de um amigo soube que estariam a distribuir o recente Atlas dos Anfíbios e Répteis de Portugal, como moro “atrás das fragas”, como dizem alguns amigos meus, muitas vezes não é fácil ter acesso a este tipo de publicações (de distribuição gratuita), principalmente quando estão apenas disponíveis na Capital e a sua distribuição é limitada, não obstante, um e-mail para o ICNB e 4,02 euros (custos de envio), foi quanto bastou para o receber em minha casa, 24 horas depois de ter enviado o e-mail.

Antes de mais quero deixar aqui os meus parabéns aos autores desta publicação pelo excelente trabalho, assim como ao ICNB pela sua eficiência na distribuição geral.

Bem sei que esta publicação já tem uns meses e que apenas agora pode ser solicitado por qualquer pessoa (pelo menos do meu conhecimento), mas sendo uma publicação não comercial é perfeitamente compreensível que a prioridade da distribuição fosse para os participante e colaboradores deste trabalho, e apenas depois para a publico em geral.

Só me resta esperar que esta atitude seja um exemplo para outras publicações futuras.

Paulo Barros

Sábado, Novembro 07, 2009

Sim, nós podemos... mas não vai ser fácil

Já ninguém põe em causa que existe uma relação estreita entre o que comemos e a nossa saúde. Por isso, mesmo que não estejamos prontos para mudar muito na nossa rotina alimentar, percebemos por exemplo que os pesticidas das hortaliças podem não matar só as pragas, que os transgénicos são uma bomba-relógio ou que os antibióticos nas rações acabam por promover as bactérias resistentes que depois nos vão infectar em momentos de debilidade. E quem se dá ao trabalho de procurar para além da prateleira do hipermercado começa a familiarizar-se com os alimentos de produção local, biológicos, da época, e até mesmo provenientes de sementes tradicionais ou com garantias de pagamento justo para os produtores. Estes conceitos fazem agora parte da nossa consciência colectiva e isso representa um grande passo em frente civilizacional.

Mas quem pensar em alimentação por mais do que uns minutos vai necessariamente chegar à conclusão de que não basta tentar criar uma campânula isolante à nossa volta (e da nossa família) e escolher criteriosamente o que se põe na mesa para garantir que a produção alimentar nos traz saúde. Quando passa uma avioneta a espalhar herbicida ou insecticida por um terreno agrícola, como é que podemos evitar respirar o ar contaminado? Não podemos. Quando bebemos um copo de água proveniente de um aquífero inquinado pelos nitratos resultantes de uma pecuária intensiva, como é que nos protegemos? Não protegemos.

A um nível mais global a questão torna-se ainda mais evidente. Estima-se que a agricultura seja responsável por 17 a 32% de todas as emissões não naturais de gases com efeito de estufa. Dito por outras palavras: a nossa maneira de comer faz mal ao planeta, e isso por sua vez começa a fazer-nos muito mal a nós. É que não há para onde fugir quando o planeta fica com febre.

Além disso, o mais elementar conceito de justiça requer que não sejam apenas os mais ricos ou esclarecidos a ter acesso a alimentos realmente nutritivos, limpos e equilibrados. (O aspartame, por exemplo, é um adoçante sintético altamente tóxico, mas o grosso da população não sabe disso e consome-o em grandes quantidades – até em produtos "saudáveis", como iogurtes.) Qual a qualidade de vida de uma família se vizinhos, tios ou amigos começam a morrer de cancro?

Resumindo: estamos todos no mesmo barco, pelo menos no que toca às consequências da alimentação. E as reais soluções de que precisamos tocam tão fundo no sistema produtivo, implicam com tantos interesses económicos e exigem mudanças tão drásticas ao nível macro, que é fácil desanimar e pensar em voltar para dentro da tal campânula. No entanto o instinto de sobrevivência – porque é de sobrevivência que se trata – acaba por falar mais alto. E as soluções começam a construir-se devagarinho, com o passa-palavra.

Claro, há organizações onde todos podemos colaborar como voluntários fazendo pressão política e sensibilização social, como por exemplo a Plataforma Transgénicos Fora (www.stopogm.net). E não custa muito organizar um debate, escrever uma carta crítica para algum jornal ou perguntar por email aos candidatos às eleições locais, nacionais ou europeias qual a sua posição concreta sobre as questões que nos preocupam.

Além disso, e porque comemos todos os dias, podemos usar cada euro que gastamos para fins alimentares como um voto que define o que queremos promover e o que preferimos boicotar. A indústria alimentar é particularmente sensível às posições dos consumidores e acaba por ouvir, mais cedo ou mais tarde.

Mas tudo isto demora tempo, consome energia e no curto prazo desgasta mais do que resulta, sobretudo face à dimensão do desafio. Por muito essencial que seja este trabalho – que é – não podemos descurar a construção no terreno das verdadeiras alternativas. Se alguma caminho vai mostrar o que é uma agricultura sustentável e para todos, vai ser o caminho que nós, cidadãos anónimos, podemos traçar em conjunção de esforços. Os governos, as empresas, as fundações, aqueles que têm poder político e muito dinheiro, já mostraram do que eram capazes e o resultado está à vista.

Não é preciso muito para começar. Um terreno baldio pode ser o princípio de uma horta comunitária. Uma visita à aldeia dos nossos antepassados pode abrir as portas para variedades regionais desconhecidas. Umas perguntas na Junta de Freguesia e ficamos a saber onde estão os produtores ecológicos mais próximos, com os quais podemos estabelecer relações de proximidade e até apoiar através de ferramentas inspiradas em modelos como a Community Supported Agriculture - agricultura apoiada na comunidade (www.localharvest.org/csa) ou as AMAP - associações para a manutenção da agricultura camponesa (www.reseau-amap.org). E até um vaso numa varanda é um princípio: este bocadinho de salsa ou cebolinho que NÓS produzimos torna-se o símbolo da nossa procura do que fica para lá do véu da Matrix alimentar... em direcção a uma real soberania sobre o que comemos.

Margarida Silva

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

Linces, coelho e habitat


Miguel Rodrigues diz-me que o que eu digo sobre a conservação do lince é diferente do dizem os muitos especialistas de vários países que trabalham sobre o assunto.
E acrescenta que gostaria de me ver explicar o que digo ao coordenador do Cat Specialist Group da IUCN, Urs Breitenmoser.
Como exemplo acrescenta um link que não consegui pôr a funcionar mas que penso que conduziria ao artigo "The use of sighting data to analyse Iberian lynx habitat and distribution", de Luis Palma, Pedro Beja e Miguel Rodrigues, sendo que o Miguel considera a competência e idoneidade dos dois primeiros como inquestionável.
Resumindo, Miguel usa argumentos de autoridade para sustentar os seus pontos de vista.
Quero por isso começar por dizer com toda a clareza que não tenho o menor respeito por este tipo de argumentos. E acrescento que pelo menos a idoneidade de uma das pessoas citadas é para mim perfeitamente questionável.
Acresce que não faço a menor ideia do que saberá Urs Breitenmoser sobre a campanha do trigo em Portugal ou sobre o erro crasso, embora comum, de considerar que a dinâmica da paisagem do sobreiro é essencialmente a mesma da dinâmica da paisagem da azinheira. Ou ainda o que saberá sobre a evolução do pastoreio em Portugal. Acredito que saiba muito, mas não é com certeza o facto de ser especialista de "gatos" que automaticamente lhe dará autoridade para não ser contestado nestas matérias que são essenciais para a discussão da conservação do lince.
Se as questões em que eu deveria ouvir mais os especialistas são as da sensibilização, direi que é normal que quem esteja envolvido na conservação de pumas, tigres, leopardos, leões e outros que tais, com uma longa história de relação conflitual com o homem (por ataque directo, ou por ataque ao gado) esteja muito atento à necessidade de comunicação associada a programas de conservação destas espécies, em especial se se tratam de reintroduções. Mas simplesmente nada disso se aplica ao lince ibérico que nunca teve nenhuma história de conflito com as pessoas.
Abandonemos pois os argumentos de autoridade e concentremo-nos nos argumentos de substância sobre a evolução populacional do lince.
O que não falta hoje são habitats de matos mediterrânicos. O que não falta são habitats favoráveis ao lince. Argumenta o Miguel que se o único factor de regressão do lince fosse o coelho, ele apareceria onde existe abundância de coelho, o que também não acontece.
Passando por cima do facto de eu preferir falar de factor crítico em vez de único factor, convém naturalmente saber que o lince não aparece em qualquer lado de geração espontânea.
Para que existam linces, é preciso condições para uma população estável de linces ou populações dadoras que estejam em contacto com as áreas de abundância de coelho.
Ora argumentar que hoje existem reservas de caça, e pode acrescentar-se, campos de golfe, com boas densidades de coelho sem que exista lince para demonstrar que há outros factores a actuar, como o habitat, é omitir que a contracção das populações foi fortíssima e que as populações remanescentes ficaram profundamente fragilizadas, sendo portanto populações fracamente dadoras.
O que impede qualquer cenário de colonização rápida de áreas com boa densidade de coelho.
Testemos a hipótese de que esta fortíssima contracção das populações de lince se deveu ao que o plano de acção para a conservação do lince caracteriza nesta frase: "O matagal mediterrânico tem vindo a desaparecer progressivamente ao longo dos últimos anos.".
Esta afirmação é um puro disparate ou uma inutilidade para a discussão da conservação do lince dependendo da escala do tempo a que diz respeito.
Avaliemos a evolução dos sistemas, para simplificar comecemos no Sul e depois alarguemos (para quem queira uma leitura complementar aconselho, por exemplo, esta referência).
Até meados, quase fim do século XIX, o Alentejo era em grande medida brenhas e charnecas sem fim. Não sabemos nessa altura como estavam as populações de lince.
Entre os fins do século XIX e meados do século XX há uma progressiva diminuição destas brenhas e charnecas, substituídas por montados, vinhas, olivais e campos de cultivo, em especial em consequência da campanha do trigo, hectares e hectares de áreas de mato, montado, olival, vinha e maninhos vários foram arroteados para a produção de trigo, incluindo grande parte das serras algarvias. Não existem notícias de grande preocupação com o lince, cuja área de distribuição ainda incluiria as dunas de mira, o vale do Sado provavelmente até Alcácer, ou a serra de Aire, perto de Fátima onde o último lince comprovadamente morto na área o terá sido nos anos 80 do século XX (na mais antiga das hipóteses, nos anos 70).
De meados do século XX até hoje, com um breve interregno em meados dos anos 70 com a reforma agrária, a situação inverteu-se e os matos, montados e pastagens ocuparam áreas imensas que temporariamente tinham sido arroteadas para o trigo. Ora é exactamente nesta altura de nova expansão dos matorrais mediterrânicos que uma profunda e muito rápida contracção das populações de lince se dá.
Devo dizer que as análises de evolução do uso do solo que participei para o Alvão e para o PNSAC (neste caso com recurso a matrizes de Markov que permitem restringir bastante a infuência dos preconceitos de quem faz o estudo), são coerentes com este padrão de evolução da paisagem (com diferenças claro, mas não relevantes para esta discussão).
O que aconteceu entretanto? Nos anos 50 a mixomatose chega à Europa, dizimando as populações de coelho e fragilizando as populações de lince. Quando parecia haver alguma esperança de recuperação, a doença hemorrágica viral, ainda mais agressiva, aparece nos anos 90 na Península, o que coincide temporalmente com segunda e fortíssima contracção das populações de lince. Estima-se que hoje a população de coelho seja de 5 a 10% da população de há cinquenta anos, quando se chegavam a encontrar densidades de 40 coelhos por hectare (hoje procuramos desesperadamente áreas com densidades de 7 coelhos por hectare, considerado o limiar mínimo para sustentar uma população reprodutora de linces).
Perante este quadro gastar recursos a fazer flores com o matorral mediterrânico e dizer que o lince precisa de zonas tranquilas e isoladas e coisas do género a mim não me convence.
Digam os maiores especialistas do mundo o que quiserem.
No mundo da ciência é importante avaliar todos os pequenos detalhes das explicações do mundo.
No mundo da gestão, e as políticas de conservação são do domínio da gestão e não do domínio da ciência, o fundamental é aplicar os recursos no que é mais eficiente para atingir os resultados que se pretendem.
O que explica que muito bons cientistas com frequência não sejam nem bons gestores, nem bons políticos.
E do que lince precisa agora é mais de boa gestão e boas políticas que de uma ciência obcecada com cada detalhe da explicação das coisas.
henrique pereira dos santos

Quarta-feira, Novembro 04, 2009

Uma discussão interessante

Miguel Rodrigues, comentando este post, levanta três questões muito interessantes a que procurarei responder separadamente em três posts: 1) Porque há zonas de habitat favorável em que não há linces e há zonas de abundância de coelho em que também não há linces; 2) O que é uma ONG; 3) Como se produz a informação científica que enforma as políticas de conservação da natureza.
Mas antes de o fazer (quando tiver oportunidade) deixo aqui integralmente o comentário de Miguel Rodrigues, acrescentando-lhe eu alguns links que me parecem facilitar a vida a quem queira ter mais informação:

"Caro Henrique
Afinal sabe mais do que as muitas dezenas de investigadores de várias nacionalidades (não só portugueses e espanhóis) que estudaram esta questão. Gostava de o ver a explicar isso ao coordenador do Cat Specialist Group da IUCN, Urs Breitenmoser. Para lhe dar apenas um pequeno exemplo, falo-lhe do trabalho em que estive envolvido em 1996, juntamente com mais duas pessoas cuja competência e idoneidade considero inquestionáveis (http://www.pluridoc.com/Site/FrontOffice/default.aspxmodule=Files/FileDescription&ID=719&state=SH). É obvio que a regressão do coelho foi um dos principais factores que ditaram a quase extinção do lince. Mas é também óbvio que este não foi o único factor. É livre de pensar o que quiser mas deveria ser cuidadoso para não desinformar os seus leitores."(…)simplesmente isso não pode ser verdade porque há áreas imensas de habitat favorável ao lince, sem que o lince lá esteja" Quer fazer-me crer que não entende esta situação? Bem, aproveito para explicar aos leitores que não sejam técnicos destes assuntos. Os surtos de doenças, largamente agravados pela falta de habitat adequado e por alguma actividade cinegética mal gerida (havendo neste caso muitos exemplos negativos e outros tantos positivos) levaram ao desaparecimento do coelho. Isso quereria automaticamente dizer, na visão do Henrique, que todas as zonas com tamanho suficiente e com grande densidade de coelho deveriam, obrigatoriamente, estar a abarrotar de linces. Como este seria o único factor… Conheço muitas reservas de caça bem geridas que, possuem boas densidades de coelho, vou já lá ver quantos linces consigo encontrar.
Quando escrevo ou falo em português, muitas vezes refiro-me à nossa associação pelo nome da espécie em português, em vez do nome científico. Erro meu. O nome completo é SOS Lynx – Associação de Defesa da Fauna e da Flora. Como somos uma associação com poucas pessoas, que trabalham no pouco tempo livre que possuem, aplicamos esse tempo a trabalhar directamente para o nosso objectivo. A página reflecte isso mesmo. Como não a explorou bem, esclareço aos leitores que poderão lá encontrar muita informação e muito trabalho realizado na área da divulgação, área essa em que nos especializamos. Poderão consultar as publicações Lynxbrief ou os relatórios publicados sobre o lince e o coelho, alguns realizados a pedido da Comissão Europeia. Estes relatórios não se referem a trabalho científico de campo mas a compilações exaustivas e muitíssimo completas sobre os temas, juntando num só volume a informação mais relevante e que, até ao momento, se encontrava dispersa por muitas publicações e opiniões pessoais. Aconselharia ao Henrique que desse uma breve leitura a estes relatórios. Irá seguramente, como todos nós, aprender qualquer coisa. Acrescento que o relatório sobre o coelho foi uma das principais bases para que o IUCN Lagomorph Specialist Group reclassificasse esta espécie de Não Ameaçada a Quase Ameaçada nas áreas de distribuição natural (http://www.iucnredlist.org/apps/redlist/details/41291/0). O que não está na página é o trabalho de sensibilização e educação que temos levado a cabo e que estamos a tentar implementar de forma ainda mais consistente no futuro. Estamos na fase de tentar arranjar financiamento e apurar pormenores de operacionalização. Espero ter podido esclarecer-lhe, e aos leitores, estes pontos. Obrigado pela oportunidade.

Miguel Rodrigues"


Espero que o Miguel não se zangue de puxar para um post este comentário, o que me parece útil e de justiça, facilitando a discussão posterior, e espero que o SOS Lince não se importe que eu use o seu logotipo, como parece que acontece com outras associações com mau feitio.

henrique pereira dos santos

Terça-feira, Novembro 03, 2009

estará tudo perdido?


Hoje fui informado através da comunicação social por uma meia dúzia de vezes que um terço das plantas e animais do planeta está em vias de extinção. IUCN dixit.

Mas tive sorte. Fui visitado por duas pessoas cheias de conhecimento que me falta a mim, para falar sobre um projeto de proteção de anfíbios e resolvi dar um grande passeio com eles.
Mostrei-lhes o que corre sérios riscos de ser a melhor galeria ripícola da bacia hidrográfica do Tejo. São 6 km de sucessões de habitats classificados, percorremos aos trambolhões uma pequena parte, onde o amial adulto faz lembrar as florestas aluviais do Danúbio, com árvores cobertas de Hera que mal aguentam o seu peso, onde os lodãos-bastardes ocupam rapidamente qualquer clareira que se abre após queda de uma árvore vencida, onde os vestígios de lontras fazem sonhar com um vislumbre dos brincalhões, onde carvalhos-cerquinhos de grande porte nas encostas aguentam estoicamente a dinâmica das colegas ribeirinhas, onde os salgueiros torcidos mostram a sua beleza envelhecida.
Os poucos vestígios de utilização humana histórica vão caindo sob o peso do passar das décadas. A ribeira viu fogos florestais a passar-lhe ao lado sem lhe tocar, viu os campos agrícolas adjacentes a serem abandonados e ocupados por amieiros de seguida. Passou décadas a produzir através da talhadia de amieiro, mas entrou na reforma já lá vão também umas décadas. E está a ficar um pouco gorda.

É a Ribeira da Foz. Perdida na charneca ribatejana, num vale encaixado, rodeado de eucaliptais a perder de vista. É extraordinária e (quase) ninguém dá por ela. Não é classificada, nem integra a rede Natura2000, não teve qualquer estatuto de proteção desde que essas modernices foram inventadas. E mesmo assim é a pérola que é. Lá vai ela, levando a sua água ao Tejo, que a leva ao mar, o ano inteiro. Ela não sabe do IUCN e da extinção. Se calhar, se soubesse, encolhia os ombros e pensava que não seria por causa dela. É uma grande senhora.

E olha só para ela...

Henk Feith

"Pareceu-lhe uma boca banguela"

O título é o verso de Caetano Veloso em que ele justifica porque Claude Lévi-Strauss, que morreu deste sábado para domingo aos cem anos, detestou a baía da Guanabara.
henrique pereira dos santos

Cabras e lobos


Hoje no Público, numa notícia pequenina (pelo menos na versão sulista, não sei o que diz a versão nortista) cita-se Henrique Carvalho (do PNPG) dizendo que na zonas portuguesa e espanhola do parque do Gerês existirão cerca de 400 cabras selvagens e, não percebi se na mesma área se só no parque português, sessenta lobos.
Lembro-me há uns anos dos inúmeros problemas levantados pelos especialistas acerca da reintrodução das cabras, nos quais se incluía a necessidade de previamente erradicar a brucelose, e nas inúmeros cuidados que haveria a ter para se fazer a sua reintrodução como mandam as regras.
Até que alguém se deve ter fartado e acidentalmente um grupo fugiu de um cercado e desatou a reproduzir-se, defendendo-se dos perigos espanhois fugindo para o lado português (onde ao contrário do lado espanhol a caça estava proibida e havia pouca caça furtiva, mas, sobretudo, dá um trabalhão ir perseguir cabras para os Cornos da Fonte Fria).
Com os lobos tive experiências várias sobre a incapacidade de lidar com o risco no processo de tomada de decisão.
A população de lobo em Portugal está longe de estar ameaçada neste momento. Existe sim um problema temporário e resolúvel a Sul do Douro com a falta de alimento, uma vez que o gado já anda muito menos no monte e as presas naturais ainda não recolonizaram a área de forma tão extensa como a Norte do Douro.
Pois ainda assim quando se propunham soluções para resolver esta questão, era frequente ouvir argumentos de base supostamente ética, de que não se deveria aumentar o gado no monte para alimentar os lobos porque isso seria favorecer uma fonte de alimentação não natural.
Para já não falar nas mais que conhecidas dificuldades levantadas que retardam o fomento de uma das principais espécies presa do lobo, como acontece com o corço.
Não tem número o número de problemas potenciais que é possível descobrir em qualquer acção concreta que se pretenda levar a cabo em matéria de conservação.
O que safa o lobo e as cabras é que a dinâmica da paisagem lhes é favorável (como ao javali) ao contrário de outras espécies como a águia real (e o lince, já agora).
Confesso que não entendo bem o que ensinam as nossas universidades de biologia em matéria de gestão da biodiversidade e biologia da conservação.
Mas da minha experiência o que me parece, e quero estar convencido de que estou a dizer uma grande asneira, é que para uma boa parte do que lá se ensina a realidade é um estorvo que convém afastar.
Suspeito que se juntasse à volta de uma mesa os trinta melhores professores destas matérias que existem nas nossas Universidades e se lhes perguntasse quem tinha experiência concreta (não inclui estudos sobre experiências concretas) de gestão de áreas importantes para a conservação ou de gestão de programas de recuperação de espécies ameaçadas, poucos seriam os braços que se levantariam.
Quando digo experiência concreta quero dizer decidir sobre um orçamento e a afectação de recursos, gerir uma equipa de pessoas com funções diversas, lidar com os poderes fácticos que se exercem sobre os territórios, conhecer as manhas de quem lá vive, saber com quem se pode contar e para quê, sem nunca poder dizer que essa matéria não está no âmbito do que se pretende discutir neste momento.
É uma pena, mas também não é nada que saia muito fora do padrão da nossa academia.
henrique pereira dos santos

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

O Estado português e a conservação do lince


Num comentário a este post, Rodrigo Serra diz: "não vejo a Ambio (nem o Gonçalo) a promover as notícias sobre os milhões de € atribuídos pela UE sob forma de programa LIFE à LPN e outros, para ajudar a atingir este objectivo final. Nem a difundir outras notícias em que o que se pretende é informar sobre esse objectivo. Nem outros programas, como o INAlentejo, o INTERREG III Algarve / Andaluzia, e outros do mesmo tipo. Espero que essa "lacuna" se deva a falta de conhecimento e não a um pessimismo generalizado."
Rodrigo Serra tem razão, podemos promover mais notícias.
Por exemplo, seguindo este link vamos ter ao programa da LPN. E podemos verificar que os objectivos desse programa são (a itálico os meus comentários):
  • "Identificar áreas de habitat prioritário para o lince-ibérico" (como? isto ainda hoje é prioritário?)
  • "Fomentar as populações de coelho-bravo" (de acordo. Só não percebo como é que uma ONG que não gere terrenos faz isso)
  • "Desenvolver protocolos em parceria com proprietários e associações" (mas sendo assim, não seria preferível serem os proprietários e associações a beneficiarem elas próprias dos fundos disponiveis para a conservação do lince? Qual é a mais valia de fazer circular os fundos por uma ONG, se os fundos não são próprios?)
  • "Sensibilizar" (mas a falta de sensibilização é mesmo um problema sério de cconservação do lince?)
Mas deixemos esse link e sigamos então para outro, mais específico do projecto LIFE de que se fala.
"Este projecto visa a recuperação do habitat do Lince-ibérico no Sítio Moura/Barrancos através de medidas de gestão e recuperação do habitat.", pode ler-se logo de entrada. De repente fiquei baralhado. Então o problema era o coelho, que foi dizimado por doenças, e o projecto visa recuperar habitat para o lince?
Vejamos então em mais detalhe:
Objectivos
  • Conservação, recuperação e gestão do habitat mediterrânico (áreas de floresta, matagal, e vegetação ripícola) através da implementação de planos de gestão em colaboração com proprietários e gestores locais (incluindo gestores cinegéticos); (fico cada vez mais confuso. Num quadro de abandono rural, em que a dinâmica da paisagem favorece o desenvolvimento dos matos, da vegetação ripícola e das matas, vamos gastar os escassos recursos existentes a fazer isso mesmo? E em terrenos de terceiros? Qual é a sustentabilidade a prazo do que for feito na vigência do projecto, que aliás está a acabar?)
  • Recuperação e gestão das populações de coelho-bravo através da melhoria das condições de alimentação e refúgio; (a alimentação do coelho pressupõe clareira, o que pressupõe gestão permanente. Um projecto demonstrativo temporário para obter resultados sustentáveis neste contexto?)
  • Desenvolvimento de um programa de divulgação, informação e sensibilização a nível local e nacional focado na conservação do Lince-ibérico e do seu habitat; (tomáramos nós, e o lince, que o problema do lince fosse a animosidade das pessoas)
  • Implementação de um programa de participação pública, com a participação de gestores, proprietários e instituições de âmbito local, regional e nacional com relevância na conservação do Lince-ibérico e do seu habitat; (nem percebo o que isto seja. Participação em quê?)
  • Elaboração de propostas para a gestão sustentável do Sítio Moura/Barrancos, para serem integradas em medidas de financiamento nacional e comunitário (e.g. Intervenção Territorial Integrada). (isto é o mais extraordinário, visto que isto está feito e pago pelo Estado português, o que falta é mesmo que o Estado português assuma isto como prioridades política nas suas opções, o que até hoje não fez)

Mas há resultados e convém, como diz o Rodrigo, difundi-los (há mais que os aqui listados, mas são reuniões, workshops e acções de sensibilização onde não consta que tenha estado nenhum lince que pudesse ter enriquecido os workshops):

  • 100 estruturas artificiais de reprodução para coelho-bravo (não discutindo a sustentabilidade destas estruturas, gostaria de perceber para que servem sem áreas de alimentação do coelho, isto é, clareira)
  • 200 comedouros e bebedouros (vamos admitir que serão geridos depois do projecto acabar embora eu não perceba como)
  • 30 hectares de sementeiras de leguminosas e gramíneas (não discutindo a sustentabilidade no tempo destas áreas de sementeira, faço notar que vários euros depois, (quase meio mihão de euros, informação que tive de ir buscar no site da comissão europeia) temos mais trinta hectares de pastagens. O preço que os contribuintes pagaram por hectare (mais de 13 mil euros por hectare) deve estar bem acima do que alguma vez imaginaram)
  • 16 hectares de área ardida, onde se procedeu à plantação, sementeira e protecção de espécies arbóreas e arbustivas autóctones (como só vai haver linces para libertar daqui a vários anos, pergunto-me por que razão não se deixou evoluir naturalmente esta área e os recursos assim poupados não foram desviados para coisas prioritárias)

Perguntar-se-á por que razão estou aqui a escrever sobre um projecto da LPN quando no título disse que ia escrever sobre o Estado e a conservação do lince. Porque este projecto é explicitamente parte da estratégia do Estado para a conservação do lince.

Pode seguir-se este link mas ninguém terá paciência para ler o que lá está. É o plano de acção para a conservação do lince ibérico.

E fazem bem, para não ter bem a consciência do que o Estado Português anda a fazer com os nossos impostos, evitando assim úlceras e AVCs. Para se ter uma ideia, só na quarta página de seis é que se começa a falar de conservação in situ e começando com esta frase: "O matagal mediterrânico tem vindo a desaparecer progressivamente ao longo dos últimos anos.".

Não se acreditaria se não estivesse escrito do Diário da República (e sinceramente deve haver uma explicação para esta frase, uma definição especiosa de matagal mediterrânico que o distinga do mato que todos os dias cresce livre dos agricultores e do gado que o combateram dia após dia nos últimos séculos). Mas quando mais à frente se diz taxativamente "muitas das áreas de ocorrência potencial do lince-ibérico encontram-se em propriedades particulares, dependendo a sua conservação da gestão aí efectuada. Neste contexto, torna-se fundamental a iniciativa dos proprietários, produtores e gestores, seja directamente, seja através de parcerias e contratualização." percebe-se definitivamente a coisa: o plano foi escrito em Fátima e alguém acredita que a Divina Providência o fará executar, porque doutra forma nunca se compreenderia que o Estado estivesse convencido de que o seu êxito depende inteiramente da iniciativa dos proprietários e, pelo contrário, teria imediatamente definido que medidas iriam ser tomadas, por quem e com que recursos (por exemplo, os existentes no PRODER) para conduzir as opções dos proprietários, que é o que fazem os Estados que não tendo Fátima são obrigados a desenhar políticas sem contar com milagres.

O mesmo Estado tem montada uma infra-estrutura de reprodução em cativeiro, sem que, tanto quanto sei porque a informação é escassa, as pessoas que sabe que são necessárias pelo menos nos próximos cinco anos sejam contratadas por concurso público, com contratos claros pelo tempo em que vão ser necessárias, como faz qualquer Estado que não acredita em milagres. O nosso Estado, devoto profundo da Senhora de Fátima, pelo contrário, contrata com base em processos obscuros, com vínculos precários (eventualmente ilegais, como bem reconheceu o Sr. Eng. Sócrates quando na campanha eleitoral garantiu que ia resolver o problema dos recibos verdes que já tinha sido resolvido pelo Sr. Eng. Guterres) porque embora a conservação do lince seja uma prioridade, parece que alguém se esqueceu de dizer isso ao Sr. Ministro das Finanças.

O mesmo Estado aliás vai usar o dinheiro do PRODER em Alqueva e outros regadios porque acredita que assim crescerá o matagal mediterrânico e os coelhos, não sendo por isso preciso dinheiro para convencer os proprietários rurais a usar as suas propriedades de acordo com as necessidades de gestão que decorrem da vontade de recuperação do lince ibérico. Parece que alguém se esqueceu de dizer também ao Sr. Ministro da Agricultura que a conservação do lince era prioritária e portanto ele esqueceu-se de mobilizar os recursos reais do PRODER, assumindo-se que uns projectitos demonstrativos financiados pelo LIFE e a boa vontade dos caçadores eram suficientes, com a ajuda da Divina Providência, para aumentar consistentemente as densidades de coelho em Portugal.

Enfim, provavelmente isto é mesmo, só pessimismo. Mas eu tenho desculpa: vivi alguns anos perto de Fátima e percebi que se a Senhora deixou crescer o caos urbanístico que existe à volta do seu santuário era provavelmente porque dela era o reino dos Céus, e cá na terra nós que trepássemos se queríamos bolota.

Provavelmente é só aí que reside a minha discordância em relação ao Estado português nesta matéria. Afinal é tudo uma questão de fé.

henrique pereira dos santos

ovelhas revivalistas



6 da manhã. O saco de pano enfiado providencialmente no dia anterior no puxador da porta, estava cheio de carcaças que o homem do pão vinha trazer. Na rua, uma simpática senhora vendia leite do dia que a frescura da manhã conservava, trazido em grandes leiteiras de metal transportadas numa pequena moto com atrelado. Pela manhã, era comum ouvir a gaita de beiço do amolador, com chamar tão inconfundível como inimitável, na sua velha pasteleira percorrendo a rua protegida do sol por majestosos choupos, chamando por facas e tesouras velhas precisadas de afiadela ou de pequeno reparo. No final do verão, havia ainda a velhota vestida a preceito com roupas rurais tradicionais dos Algarves e duas pequenas cestas de verga forradas de folhagem que protegiam precisos figos pingo de mel de algum calor que teimava em retardar a invernia. Mais tarde, a mesma senhora, agora ora um xaile, ora um velho casaco que disfarçava o frio que começava a cair, assava deliciosas castanhas que sabiam sempre melhor que as que se faziam lá por casa. E no parque, bem no centro de Algés, nos arrabaldes da grande capital, pastavam duas solitárias ovelhas cujo dono nunca conheci. Coisa estranha para ali estar.  

Tudo isto me veio à memória há uns dias atrás, quando a Sra. Ermelinda passou aqui na rua com o seu pequeno rebanho de ovelhas, noutros arrabaldes da grande capital, ainda assim supostamente urbanos. Como muitas gentes que nos idos anos 60 e 70 protagonizaram o êxodo rural no sul do país, vindo viver para a margem sul, também Ermelinda acompanhou seu marido, que arranjara emprego na siderurgia nacional, vinda do seu querido Alentejo. E, como muitos outros trouxeram laranjeiras e tomateiros fundando o conceito a que carinhosamente gosto de chamar "jardins de couves", Ermelinda trouxe algumas das suas ovelhas. E fez bem.

Gonçalo Rosa

Domingo, Novembro 01, 2009

O Bitoque II

Roubei este título ao penúltimo post do HPS. Depois de alguma troca de comentários, acho que vale a pena reflectir um pouco mais sobre as questões de fundo levantadas (não me refiro ao objecto específico do post do HPS com o qual no essencial concordo).

Ninguém em princípio aspira a viver num mundo onde os fundamentos ecológicos de segurança e prosperidade estejam em causa e portanto neste aspecto podemos dizer que existe uma igualdade entre os cidadãos e que não está em causa a influência que o universalismo tem nas causas ambientais. Contudo, subjacente a este pensamento existe frequentemente a crença no progresso, ou seja, que no fim uma nova ordem social e política mais justa e fraterna aparecerá se incluirmos os valores ambientais (entre outros) nos padrões económicos porque nos regemos.

Ora, a economia é antes de mais o reflexo de como os quase dez biliões de seres humanos do planeta tentam sobreviver e terem uma vida melhor. Logo a luta por interesses, por vantagens e pelos poderes localmente estruturados é determinante. O mundo é profundamente desigual e tem sido esta desigualdade (que não é sinónimo de falta de ética) o motor da civilização, pelo que a liberdade não é asséptica e depende sempre da percepção dos actores e da envolvente em que se movem, ou seja, o local continua a ser determinante mesmo numa época de globalização.

Muito do que se conseguiu em termos ambientais esteve e está associado a um novo paradigma comportamental onde a responsabilidade sobre as consequências ambientais das nossas acções é assumida voluntariamente. Hoje, dificilmente por regulamentação e taxação apenas sem uma globalização da responsabilidade se caminhará para um desenvolvimento sustentável. O exemplo do mercado de carbono, essencial ao combate às alterações climáticas, nasceu e consolidou-se como projecto voluntário de responsabilidade ambiental e social e não como fruto de regulamentação.

As causas ambientais sérias e estruturadas há muito que perceberam que uma das suas forças é a racionalidade dos argumentos, a sua base científica e a ligação destas com a decisão política. Só para dar um exemplo, que todos conhecemos, basta referir que sem esta lógica já não existiria Rede Natura na Europa. Contudo, em muitas situações por idealismo em excesso, na minha opinião, a “crendice” e a falta de razão empírica são exploradas como argumento. É o mundo que irá acabar já amanhã por sobreaquecimento, ou a fome que se irá instalar se não actuarmos rapidamente nos sistemas de produção de alimentos, ou os oceanos que se irão transformar em locais sem vida já na próxima década (o exagero é meu e propositado). Será sem dúvida uma boa estratégia de marketing, mas usada em demasia tem o efeito contrário (tantas vezes se diz "que vem aí o lobo, que quando este vem já ninguém acredita"). A integridade dos ecossistemas é fundamental para a economia, mas esta baseia-se em factos e não em mitos.

A questão essencial para o ambiente não é nem a falta de reflexão e pensamento nem a falta de regulamentação, mas sim a incapacidade de transformar os caminhos formulados, de sociedade e não apenas económicos, em acções que mobilizem e tenham impacto positivo nas aspirações das pessoas. Como conseguir estar nos sonhos e propósitos daqueles que apresentam energia para a mudança. O que falta não são conceitos e planos, mas sim projecto.

"vaquinha"


uma vaquinha, esta sem aspas, num lameiro raiano

No últimos dias, veio à liça na lista Ambio uma discussão sobre o sentido de lançar uma campanha de angariação de fundos para ajudar a pagar os custos da defesa em tribunal de três arguidos no processo Verde Eufémia, acusados da destruição de meio hectare de milho transgénico.

O que aconteceu em Agosto de 2007, foi um acto de vandalismo, completamente inadmissível num estado de direito, próprio de grupos fundamentalistas que entendem que a razão, a sua razão, verdadeira e moralmente superior, está acima da dos outros e até das próprias leis. Não está em causa o que defendem, mas a forma como o fizeram. Lesaram claramente o agricultor em questão, que agia no quadro da lei, e, já agora, lesaram fortemente a imagem do movimento ambientalista.

Ainda assim, algumas pessoas minimizam a gravidade deste acto de vandalismo, apelidando-o de irrelevante quando comparada com grandes crimes ambientais, defendendo-a pelo contributo que, segundo elas, os responsáveis por aquela acção já deram à causa ambiental e, enfim, culpabilizando os midia por um certo empolamento e distorção dos factos. Onde é que eu já vi isto tudo. Todas estas justificações e comparações não fazem nenhum sentido e é bom que, em sede própria, se faça o mínimo de justiça - já que mais de uma centena de intervenientes na acção não irá a tribunal (imagino que por impossibilidade de os identificar) e porque dificilmente o dano criado à imagem do meio ambientalista, onde acredito que a grande maioria das gentes não se identifica nem aprova tais selvajarias, dificilmente se pode reparar.

Quanto ao peditório público, não consigo ver em quem dá, outra lógica que a da tentativa de aligeirar as consequências do crime e uma certa condescendência no recurso ao meio, justificado pela infinita bondade do fim. Mas deve ser de mim, tipo de vistas curtas e cinzentão, daqueles que gosta de viver num estado de direito onde se podem fazer uma boa série de coisas como peditórios e escrever em blogues e listas, ainda que outros possam não perceber e discordar destas iniciativas. E ainda bem.

Gonçalo Rosa

Sábado, Outubro 31, 2009

Lobo ao Sul do Douro

Fotografia de dejectos presumivelmente de lobo tirada a 02/09/2009 num dos parques e eólicos do Montemuro
"O Publico publicou a 14 de Outubro de 2009 uma notícia intitulada “Alcateia de lobo ibérico ameaçada por parque eólico”, onde entre outras coisas se podia ler:
“O principal é a ‘Ribeira dos Cubos’, onde foi confirmada reprodução em Agosto de 2008, sendo considerado o local mais importante para a conservação da alcateia. A ‘Corga do Redondelo’ é o centro de actividade secundário, tendo sido local de reprodução em anos anteriores até que um incêndio, em Agosto de 2005, destruiu a vegetação e a zona deixou de ter condições para albergar a alcateia com as suas crias. Para os investigadores, a protecção destes dois centros de actividade é prioritária, já que se trata de zonas importantes para a preservação do lobo na Serra de Leomil.”
Embora concorde com o com grande parte das coisas que são ditas nesta notícia, nomeadamente a importância desta alcateia a Sul do Douro e a importância de salvaguardar os centros de maior actividade, além de esta alcateia ter potencial para fornecer um input genético em alcateias confinantes (e.g. Alcateia do Montemuro e Alcateia da Lapa) ou até mesmo para todo o núcleo populacional Arada/Trancoso.

Não obstante, a serem verdade as informações dadas nesta notícia sobre a localização dos centros de maior actividade, as quais poderão ser perfeitamente suficientes para quem tiver más intenções (que normalmente são pessoas com grande conhecimento e experiência de campo), não posso deixar de repudiar a publicação destas informações, até pelas notícias de lobos mortos dessa zona nos últimos anos.
Esta alcateia sofre do “pecado original” de estar isolada, naturalmente a Norte pelo Rio Douro, a Sul pelo Rio Paiva e indisponibilidade de habitat (quer para a espécie quer para os suas presas), a Este pelo tipo de ocupação de solos, resta-lhe uma única orientação, a de Oeste, contudo entre esta alcateia e a de Montemuro (alcateia confinante), existe uma Auto-estrada que poderá representar um obstáculo para a dispersão de indivíduos, em especial para os Sub-adultos (e do que li na noticia, esta alcateia é bastante produtiva).Assim caso sejam verificados impactes significativos sobre esta alcateia pela construção deste empreendimento, seria interessante que as pessoas com responsabilidade sobre a matéria, reflectissem sobre medidas de compensação direccionadas para o aumento da permeabilidade da Auto-estrada, ou mesmo na criação de uma Área Protegida Privada, visto esta Alcateia não se encontrar inserida nenhuma Área Classificada.

Paulo Barros"

Sexta-feira, Outubro 30, 2009

Koala Rescued


fonte:http://news.nationalgeographic.com/news/2009/02/090212-burned-koala-photo.html

No decorrer de uma pesquisa na net encontrei esta foto já com alguns meses.

("...Volunteer firefighter David Tree came across the koala walking on her scorched paws in a charred forest in Mirboo North, northeast of Melbourne, on February 1. "I could see she had sore feet and was in trouble, so I pulled over the fire truck. She just plonked herself down, as if to say, I'm beat,". He offered her a drink from a water bottle, and "the most amazing part was when she grabbed my hand. I will never forget that....")

Evolução e inteligência dos organismos

Tenho o prazer de poder disponibilizar a palestra de Dick Vane Right na Universidade de Évora. Uma informação sintetizada sobre o autor e a palestra pode ser lida aqui.

passos e objectivos finais

lince-ibérico
(imagem sacada daqui)


Com a chegada dos primeiros linces ao Centro Nacional de Reprodução do Lince-ibérico - de acordo com o Público, amanhã chegarão mais quatro exemplares - relembro que o objectivo final do projecto é a reintrodução de animais na natureza, por forma a estabelecer populações viáveis deste felino. Segundo Humberto Rosa, Secretário de Estado do Ambiente, "o protocolo a assinar [com as autoridades espanholas] prevê que em três anos Portugal prepare um habitat para receber o lince na natureza, sem ser em cativeiro, uma vez que esse é o objectivo deste projecto ibérico" (ver notícia aqui).

É que, com a recepção dos primeiros linces, e com o eventual nascimento de crias, cumprem-se metas intermédias, é certo que assinaláveis e essenciais, mas apenas passos no sentido do objectivo final que terá sempre que passar pelo estabelecimento de populações viáveis de linces (já agora, acrescento eu, com características comportamentais semelhantes aos dos animais que habitavam os ecossistemas ibéricos). Sem este objectivo atingido, o projecto falhará. E eu não gostaria de ver passos conquistados, promovidos objectivos finais.

Gonçalo Rosa

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

A liberdade da dieta

Nos comentários do post anterior há uma série de questões sérias que se levantam sobre a proposta de taxar os cereais usados na alimentação de animais.
Uma dessas questões, e não certamente a menor, é o do condicionamento da liberdade individual que uma medida destas representa ao pôr nas mãos do Estado decisões sobre o que deve ser a dieta ideal.
Não desvalorizo este argumento de maneira nenhuma e escrevi aqui e aqui contra a consideração de algumas dietas como moralmente superiores a outras.
No entanto o argumento da liberdade de escolha de dieta não pode ser usado sem uma avaliação de mais detalhe das implicações éticas que resultam das suas implicações ambientais.
Como é da natureza das coisas só os muito ricos têm total liberdade de escolha das suas dietas. Os outros têm uma liberdade condicionada pelo seu rendimento.
Importa por isso considerar o que são direitos básicos nesta matéria e o que são possibilidades abertas pelo grau de riqueza de cada um.
O direito básico será o de não morrer à fome. E este deve balizar a minha liberdade de escolha da dieta (deixando de lado a discussão sobre o direito de me deixar morrer à fome a mim próprio, que é uma discussão marginal neste contexto).
Portanto a pergunta prévia é a de saber se é possível satisfazer este direito básico adoptando uma dieta semelhante à americana (ou europeia, embora esta seja menos agressiva que a americana).
De acordo com o que Lima Santos disse na Gulbenkian, um indiano ou chinês com a sua dieta tradicional vegetariana ou quase consome 200 Kg de cereais por ano. Um americano cerca de 800 Kg, não porque coma 800 Kg de cereais (daria uma média de mais de dois quilos por dia) mas porque comendo muita carne usa um conversor de cereias em alimentos de muito baixa eficiência.
Significa que a progressiva adopção de dietas ricas em carne no resto do mundo que hoje não as têm, implicaria multiplicar a capacidade produtiva por três ou quatro. Isso já foi feito nos últimos cinquenta anos, mas o que se verifica é que o retorno de cada unidade de input energético na agricultura (e em especial na mais produtiva) é progressivamente menor, não sendo crível que se possam obter os mesmos resultados que se obtiveram com a revolução verde das últimas décadas.
O que é previsível nestas condições é um progressivo aumento do preço dos cereais, quer pela sua progressiva escassez, quer pelo previsível aumento do custo dos inputs energéticos (onde estou a incluir os fertilizantes, que não levantam apenas o problema da escassez energética mas também de nutrientes).
O resultado, muito antes de afectar o consumo de carne das dietas dos países ricos, é o aumento da fome nos países pobres.
E aqui retomamos a discussão ética: o que está em causa não é apenas a minha liberdade de comer o que quiser, é antes o confronto entre essa liberdade e o direito de não morrer à fome de terceiros.
Por isso a proposta de Lima Santos me parece tão interessante: a forma como intervém na minha liberdade de escolher uma dieta mimetiza os mecanismos de mercado, distorcendo o preço dos cereais usados para rações, o que levanta problemas que vale a pena discutir, sem dúvida, mas que me parecem problemas incomparavelmente menos graves que os que são levantados pelo aumento do preço dos cereais para alimentação humana, de que tivemos uma pálida amostra no ano passado.
Ou seja, intervém na minha liberdade de uma forma semelhante aos outros factores de formação do preço e não de forma coerciva. Eu mantenho a liberdade de escolha dentro do meu nível de rendimentos.
Claro que os optimistas dirão que a sociedade encontrará os mecanismos para sair desta armadilha como sempre encontrou, sem necessidade de intervenção dos Estados.
Isso é verdade.
Mas o que a proposta ajuda a discutir é o preço social das diferentes alternativas, incluindo as suas implicações éticas implícitas no argumento sobre a liberdade de escolha da dieta.
henrique pereira dos santos

Terça-feira, Outubro 27, 2009

Uma proposta estimulante


Fui hoje ouvir duas conferências na Gulbenkian, uma do Miguel Araújo, previsivelmente interessante (e na verdade o motivo para ter lá ido) e outra de Lima Santos (e na verdade o motivo para ter esperado mais um bocado para me vir embora).
Fiz bem em ter ficado.
Lima Santos apresentou uma ideia em cuja viabilidade o próprio disse não acreditar mas que eu acho muito, muito estimulante.
Falava Lima Santos de um dos meus temas predilectos (alimentação e ambiente), identifica as alterações de dieta como mais perigosas ambientalmente que o aumento demográfico (por cada chinês ou indiano que muda de uma dieta tradicional para uma dieta americana, é como se nascessem três ou quatro novas pessoas do ponto de vista do consumo alimentar) e identifica o consumo de carne como o grande problema.
Eu teria duas observações de detalhe a fazer, uma quanto à necessidade de falar em consumo excessivo de carne por contraponto ao consumo de carne tout court, outra quanto à necessidade de separar a carne produzida a partir de rações feitas de cereais das outras carnes produzidas em terras impróprias para cereais. Mas isto são dois detalhes.
O interessante é a proposta de Lima Santos de criar uma taxa sobre os cereais usados no fabrico de rações, com o objecto de subir o preço da carne e diminuir o preço dos cereais para alimentação directa das pessoas.
As razões pelas quais Lima Santos não acredita na exequibilidade da proposta prendem-se com a oposição feroz que esta proposta teria dos produtores de cereais e dos produtores de carne, para além, naturalmente, dos produtores de rações.
Vejamos então como inverter a questão politicamente.
A primeira e mais fácil opção é a de introduzir a taxa progressivamente, isto é, criando um período de transição em que as taxas são baixas e vão crescendo. Isto permite suavizar o impacto inicial e dá tempo de adaptação aos agentes económicos.
Mas o fundamental é ver quem ganha e quem perde, para gerir apoios e oposições.
Perdem os produtores de cereais, os fabricantes de rações e os produtores de carne que usam rações porque todos eles perdem mercado com a subida do preço. E perdem os mais pobres que terão mais dificuldade em comprar carne.
Ganham os produtores de carne criada sem rações, ganham os produtores de todos od produtos que substituirão a carne (com os produtores de leguminosas, como feijão e grão, por exemplo), ganham os importadores de carne não sujeita ao mesmo imposto e ganha o Estado que arrecada a taxa.
Neste cenário o que é mais injusto é os pobres saírem perdedores, o Estado arrecadar mais uma taxa (neste caso, em rigor, um imposto) e o país perder competitividade global no sector.
Se para a questão do comércio internacional não vejo solução no quadro de uma economia aberta e comércio livre (mas o mesmo se passa com as renováveis, com implicações mais globais na competitividade do país, e isso não tem impedido a opção política de as apoiar), já para os outros problemas políticos parece-me fácil encontrar a solução: os recursos arrecadados com a taxa devem reverter para dois grandes destinatários: os pobres (admitindo mesmo que sejam entregues vales para a compra de carne, minimizando as perdas de mercado e melhorando a equidade) e os projectos de melhoria de eficiência e aumento da incorporação de alimentação não proveniente de cereais apresentados pelos produtores afectados.
Sim a proposta é de facto de difícil gestão política.
Mas é muito boa e eu não atiraria a toalha ao chão dizendo que é politicamente inaceitável porque tal como as portagens nas cidades, parece-me muito uma questão de detalhar a solução socialmente mais justa e economicamente eficiente.
Gostaria de ver o movimento ambientalista adoptar esta proposta.
henrique pereira dos santos

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

Um post amiguista


Enquanto na lista Ambio se discute se o capitalismo cairá aos pés da crise ambiental, eu deixo aqui um link para um projecto (lendo os nomes da equipa fácil é perceber que não sou um observador com isenção à prova de bala) que visa exactamente levar mais capitalismo onde ele parece que está a fazer falta.
Se não quiserem perder muito tempo no site, vão directos ao separador fieldwork e às três newsletters já produzidas.
E não nos esqueçamos que cada euro gasto a financiar o rendimento dos nossos agricultores e pescadores (que não deve ser confundido com os euros gastos na remuneração de serviços ambientais que o mercado falha em remunerar) é mais um peso a arrastar por esta gente apanhada na armadilha da pobreza.
henrique pereira dos santos

Ainda a Reserva Agrícola Nacional


Contra todas as minhas expectativas, a petição para reabrir o debate sobre a Reserva Agrícola Nacional, precocemente desaparecida do nosso sistema jurídica e substituída por um fantasma que lhes faz as vezes, tem vindo a somar assinaturas.
Neste momento faltam pouco mais de duzentas para tornar obrigatória a sua discussão na Assembleia da República.
Talvez um novo pequeno impulso permita ressuscitar o cadáver da Reserva Agrícola e fazer a revisão do seu estatuto de que precisa, de forma sensata e ponderada.
A quem quiser ajudar é só dar um salto a este site, assinar a petição e esperar que rapidamente se consiga tirar partido da nova relação de forças da Assembleia da República para aprovar um regime da RAN que garanta um mínimo de protecção a um dos mais escassos bens naturais do país.
henrique pereira dos santos

Domingo, Outubro 25, 2009

excelente ideia


Foi através do programa Biosfera que tomei conhecimento da iniciativa menu km zero, da Junta de Freguesia de Ericeira. Eis um bom exemplo da iniciativa local na sustentabilidade da (agri)cultura local, em saudável alternativa às queixas e pedidos de ajuda ao governo habituais da CAP e amigos.

Henk Feith

A conservação do lince ibérico

O Público de hoje tem uma longa notícia sobre conservação do lince, tendo como pretexto imediato a chegada amanhã do primeiro lince ao centro de reprodução do Algarve.
Há já alguns anos que vou acompanhando o que é feito para a conservação do lince, de maneira geral com bastantes dúvidas sobre a afectação de recursos que é feita com base na conservação do lince.
E lendo as notícias mantenho as minhas dúvidas.
Há bastantes anos tive várias discussões porque defendi que a reprodução em cativeiro não era prioritária, sendo um gasto de recursos brutal com pouco efeito real na conservação da espécie.
A situação progressivamente mais desesperada das populações de lince convenceu-me a mudar de posição e achar que era preciso ter um bom programa de reprodução em cativeiro, no mínimo como seguro de vida da espécie, quer ela se extinguisse ou não na natureza. O que não significa que ache a reprodução em cativeiro em Portugal prioritária mas admito que Portugal participe nesse esforço que é fortemente consumidor de recursos, e de resultados muito incertos.
As minhas dúvidas prendem-se com o meu desconhecimento do modelo de gestão do centro do Algarve (não sei quem paga, quanto paga e com que objectivos) mas sobretudo com as medidas de conservação in situ.
O conservação do lince depende inteiramente da conservação do coelho. Convém compreender bem o que se passou com estas populações de coelho para perceber a minha perplexidade quando ouço dizer, a propósito da conservação do lince, que a tranquilidade e a ausência de pessoas é uma condição favorável à sua recuperação.
No Mediterrâneo o coelho, animal de clareira como nós, co-evoluiu connosco, tornando-se, durante milhares de anos, um animal abundante com um grande peso não só na dieta humana como na de muitos outros predadores, com especial destaque para o lince de que é praticamente a única presa.
Poucos anos depois da introdução do primeiro vírus na Austrália com o objectivo de controlar as populações de coelho que são uma praga naquela zona do mundo, o vírus foi introduzido acidentalmente em França. Menos de cinco anos depois, mais de 90% da população de coelhos de França e Inglaterra tinha sido dizimada.
Para o Mediterrâneo e para a área de distribuição do lince não existem dados com a mesma precisão, mas é consensual a ideia de que há uma queda acentuada do número de coelhos, o seu desaparecimento, mesmo que temporário, de muitas zonas e, sobretudo, uma rarefacção brutal, com diminuições de densidade que tornam inviável a existência de populações de lince (seis a sete coelhos por hectare é considerado o limiar mínimo de densidade de coelhos para sustentar populações viáveis de lince, situação que em Portugal ocorre em muito poucos sítios, fortemente geridos com objectivos cinegéticos).
Nestas circunstâncias confesso que não percebo a preocupação com os matagais mediterrânicos (importantes para refúgio do lince e do coelho, mas incapazes de por si sustentarem elevadas densidades de coelho e, de qualquer maneira, em expansão face ao abandono agrícola) em vez de preocupações com a manutenção das clareiras que sempre foram mantidas pela agricultura e o gado, esses sim, em clara retracção.
Parece evidente, para quem tem consciência do custo de manter paisagens em estados de evolução iniciais, contrariando pois a tendência natural de evolução progressiva para matos e matas, com colmatação de clareiras, que não é com projectos parcelares de apoio temporário suportados em financiamentos elevadíssimos por hectare que se consegue manter o mosaico necessário à elevada densidade de coelhos em áreas muito vastas.
A única solução é encontrar economias que suportem esse trabalho diário de formiguinha que consiste em todos os dias contrariar a natureza. Não é por acaso que as últimas áreas onde encontramos linces na natureza correspondem a habitats particulares onde a rarefacção da vegetação é uma característica que resulta das condições naturais e não da longa interacção do homem com a natureza.
Essas economias podem ser antigas (a complementaridade de áreas agrícolas, pastagens pobres e matagais resultante de mão de obra intensiva, fogo e gado), com podem ser modernas (a actual gestão cinegética), como podem ser para lá de modernas (as economias assentes na criação de valor de mercado a partir da biodiversidade, seja pelo turismo, seja pela valorização de produtos, seja pela caça ao lince, seja pelo mercado das doações, etc.).
Para isso os estados da União Europeia dispõem de instrumentos: os instrumentos de financiamento do mundo rural.
É por isso que a frase mais significativa do artigo do Público me parece ser esta:
""As pessoas não têm nada contra o lince mas contra a falta de coordenação e de informação." Turíbio exemplifica que uma das exigências para a atribuição de subsídios da Política Agrícola Comum é não ter mato com mais de 50 centímetros de altura. "Consideram que está abandonado, por isso tenho que o cortar. Mas isso não ajuda à recuperação do lince"."
É isto, andamos a fazer marouços, pastagens que ninguém pasta, sensibilizações e rodriguinhos tais, ao mesmo tempo que os verdadeiros instrumentos de gestão de paisagem em larga escala trabalham ignorando olimpicamente a gestão da biodiversidade.
henrique pereira dos santos

Sábado, Outubro 24, 2009

Curiosidades II

Às vezes convém lembrar que a natureza é bem mais complicada e adaptativa do que parece resultar dos modelos com que a interpretamos: raiz (?)/ tronco (?) de plátano.
henrique pereira dos santos

Sexta-feira, Outubro 23, 2009

Curiosidades

Os pastos comuns da vila de Alvito pelos vistos davam para pagar obras destas, ainda hoje em uso como se vê abaixo (clicar na fotografia para ler).Actualmente parece que já não há coutos que financiem as obras de interesse comum, portanto as placas que agora se vêem espalhadas pelo país são deste género:
Mas infelizmente o resultados, muito frequentes pelo país fora, são hoje um pouco diferentes:
Um dia gostaria de ver um estudo sobre os milhares de euros de investimento público que, tal como este, jaz morto e apodrece sem proveito nem glória.
Muito deste investimento (e conheço por contacto directo uma dezena de infra-estruturas que ou nunca funcionaram, ou nunca cumpriram a função que justificou o investimento, ou tiveram uma existência breve antes de entrarem em processos de degradação rápida) é investimento feito sem que alguma vez alguém tenha explicado como se ia financiar a sua operação, ou explicando com delírios nunca verificados posteriormente.
Muito deste investimento na realidade nasce para se adaptar aos recursos financeiros disponiveis, em vez de nascer para resolver os problemas das pessoas para que foram criados os programas públicos de disponibilização dos recursos financeiros.
henrique pereira dos santos

Quinta-feira, Outubro 22, 2009

badalhoquice nacional



A pedido, um amigo teve a gentileza de fazer e enviar-me estas fotos, obtidas após a feira de Castro Verde, realizada no fim-de-semana passado. Comentou comigo que este ano o cenário era, apesar de tudo, mais decente, porque os serviços de limpeza iniciaram os trabalhos rapidamente, o que, apesar de tudo, contrasta com o que eu assistira há uns anos atrás, quando no dia seguinte à feira um forte vendaval varreu a vila, levando plásticos e cartões pelos ares. Uma espécie de cenário de outro mundo, de um mundo aparentemente pior.



É normal que, nestes dias, os serviços de limpeza dediquem especial atenção aos locais onde se realizara a feira. Mas parece-me um verdadeiro desleixo e falta de civismo esta espécie de "façamos nas fraldas que alguém há-de limpar". Mas há quem viva bem assim...

Gonçalo Rosa

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

Mudanças

Clicando na fotografia pode ver-se melhor o relativamente velho Alentejo da esquerda a transformar-se no relativamente novo Alentejo da direita, na área de influência de Alqueva.
Fotografias semelhantes se poderiam fazer tendo no lado esquerdo campos de trigo, ou searas de melão, dependendo da zona. Do lado direito teríamos quase sempre a mesma imagem de olivais intensivos a perder de vista.
Não tenho opinião sobre este processo de mudança, tenho apenas perguntas.
O que significa isto do ponto de vista de biodiversidade? O que significa isto do ponto de vista de emprego? O que significa isto do ponto de vista de dinamismo económico? O que significa isto do ponto de vista de sustentabilidade? O que significa isto do ponto de vista de aplicação dos recursos públicos?
O que sei sobre estas perguntas é relativamente pouco: que o preço da água é um preço político, isto é, abaixo do custo, que esse custo depende em grande medida do preço da energia, que o investimento público no projecto de Alqueva é pelo menos 11% do PRODER, mas não sei se aqui já estão contabilizados as ajudas públicas à instalação dos olivais (penso que não), não sei qual é o balanço de perdas e ganhos do ponto de vista do emprego (parece-me favorável ao olival, que além da produção directa da azeitona tem uma razoável componente de valorização local do azeite, mas desconheço se assim é), tenho dúvidas do que significa esta opção para a conservação do solo (vi largas áreas de solo nu, vi faixas entrelinhas com cobertura de prado, vi valas profundas de drenagem sem grande preocupação de retenção de solo, vi manchas contínuas sem interrupções por sebes ripícolas), etc..
O que me passou pela cabeça foram as febres anteriores com os fruticultores todos de repente a mudar para maçãs golden, com a hortofruticultura a desembocar no Roussel, com a floresta a correr desesperadamente para o petróleo verde, com as campanhas do trigo, entre outras.
Lembrei-me como todas estas febres tiveram efeitos positivos e negativos, mas a maioria dos positivos foram efémeros e os negativos foram de longo prazo, deixando o mundo rural mais fragilizado que antes.
E mais que tudo lembrei-me de como estas febres foram todas induzidas pelo Estado e pelas políticas agrícolas dos amanhãs que cantam e das soluções únicas redentoras.
Confesso que fiquei ainda mais um bocadinho liberal, rezando para que o mercado introduza equilíbrio e diversidade na criação de valor, onde o Estado só vê sectores estratégicos cegos à especificidade produtiva que cria a oportunidade de diferenciação remunerável pelo mercado.
henrique pereira dos santos

interesses obscuros?



No Domingo passado, a SIC noticiou as rotas de três tartarugas recuperadas pelo ZooMarine e libertadas no início de Outubro. Os animais, marcados com emissores, nadam agora Oceano Atlântico dentro ou ao longo da costa atlântica marroquina. Seguiram o seu caminho percorrendo, na totalidade, algo mais de 2000 quilómetros.

Desde 2002 que o ZooMarine tem um contrato com o ICNB, sendo responsável pela recuperação de mamíferos e repteis marinhos em Portugal, desenvolvendo assim um trabalho em prol da promoção ambiental e de serviço à comunidade que nunca o Estado teve capacidade de executar. Dá enorme relevo à educação/promoção ambiental que, na minha opinião, deve ser a principal vertente destas estruturas, mas que, por exemplo nos centros do Estado tem sido continuadamente desprezada, entendendo-se a recuperação de animais como um importante braço armado da conservação da natureza. Salvo casos muito particulares, um enorme equívoco.

Eis pois, para desconcerto de alguns, uma bela demonstração de como uma empresa privada que tem obviamente fins lucrativos, pode prestar um excelente serviço na área ambiental, em contra ponto à incapacidade do Estado, obeso de tantas competências legais nesta e noutras áreas, mas indolente no seu cumprimento.

Gonçalo Rosa

Terça-feira, Outubro 20, 2009

Is less bad good enough?

Ecoponto no subúrbio de Santarém

Uma das questões relevantes na análise da sustentabilidade do uso dos recursos naturais se prende com a inversão da curva de consumo mundial, fortemente ascendente, não só em consequência da subida do nível médio de riqueza dos países em desenvolvimento como China, Índia, Brasil e Russia, mas também da alteração dos padrões de consumo no mundo ocidental. Verifica-se por um lado um multiplicar de apelos ao consumo racional e à redução do desperdício e por outro lado um esforço de muitos cidadãos em responder positivamente a esses apelos. No entanto, grande parte desse esforço é dedicada à minimização dos impactes a jusante do nosso consumo (reciclagem, tratamento de efluentes e emissões gasosas, reutilização etc.) e muito pouco a montante do consumo.
O tema da reciclagem de resíduos é um excelente exemplo e a foto acima mostra que o sistema de recolha de resíduos previamente separados pode tornar-se vítima do seu próprio sucesso. Com equipamentos cada vez mais práticos para a receção dos resíduos (já lá vai o tempo dos feios e infelizes caixotes castanhos com aberturas minúsculas, altas e frequentemente nojentas que dificultavam a colocação das embalagens), a aderência dos cidadãos é surpreendente e obriga as empresas de recolha a um trabalho suplementar para evitar o esgotamento da capacidade.
Se por um lado esse sucesso é francamente positivo (Portugal corre sérios riscos de atingir as metas estabelecidas por Bruxelas, o que não é mal para variar), ao mesmo tempo mostra o outro lado da medalha: as quantidades de resíduos que são produzidos em consequência do nosso consumo são inimagináveis. Eís um bom exemplo (entre muitos) da questão: será que o "less bad" (reciclamos entusiasticamente) é "good enough" para o consumo se tornar realmente sustentável? Ou será o consumo somente sustentável a longo prazo se consegue encarar a questão da sustentabilidade pelo lado a montante do consumo, da redução do consumo?

Henk Feith

Domingo, Outubro 18, 2009

O Falhanço de um Modelo

Estamos nos últimos dias da vida deste Governo. É genericamente reconhecido que o seu desempenho na área do Ambiente deixou muito a desejar (estou intencionalmente a ser bastante comedido…). Para muitos, tal desempenho vem da baixa prioridade que as pessoas dão à área do ambiente em tempos de crise. Outros consideram que a área ambiental em Portugal perdeu o seu furor e salientam a dificuldade de se construir hoje algo de concreto e positivo para a sociedade. Mas, para quase todos a inexistência política e a incapacidade para a acção do Ministério e do seu Titular, não só não ajudaram como contribuíram em muito para este resultado.

Contudo este Ministério foi-nos apresentado há quatro anos como uma das apostas deste Governo e como aquele que iria ser o motor do desenvolvimento do País. Sócrates, ao não ter querido reeditar o modelo de departamento ministerial de planeamento com as características do de Cravinho/Guterres, onde os “drivers” do desenvolvimento regional eram os grandes equipamentos que estruturariam o território, “compra” a lógica do Desenvolvimento Sustentável. Assim se conseguiria a integração do económico, do social e do ambiente através do planeamento para o desenvolvimento. Para isso, criou um Ministério onde estivessem o ambiente (os grandes desafios civilizacionais…), o Planeamento do Território, o Planeamento de Políticas e Prospectiva Estratégica e as Cidades (a materialização das ideias para o socioeconómico, leia-se planos…) e os fundos comunitários (o dinheiro, ou pelo menos o seu planeamento e controlo).

Com esta “máquina” não se pretendia que ela fosse a condutora operacional de políticas, mas apenas o ser pensante e planeador estratégico que teria de influenciar (através de planos, “estratégias nacionais…”, ou outros programas) os restantes ministérios que aceitariam o papel do “fazer” operacional. Ora, bastava ter existido algum conhecimento do que foi a realidade e a evolução do pensamento nos últimos 50 a 60 anos da Estratégia das Organizações para perceber que este modelo estava votado ao fracasso.

No final dos anos 50 do século passado, os desafios estratégicos para as organizações passavam por encarar o planeamento como algo de longo prazo que saísse da óptica anterior, contabilista e de controlo financeiro de curto prazo, que realçasse a capacidade de previsão de um futuro que era no essencial estável. Pretendia-se alguém que, recolhendo informação sobre os desafios futuros, desenvolvesse planos que iriam influenciar e orientar posteriormente os departamentos funcionais da organização, que se estruturavam numa óptica hierárquica tradicional enquadrando tarefas sistematizadas e estandardizadas. A incapacidade de liderar mudanças estratégicas na organização, o desenvolvimento burocrático de planos que chegavam sempre tarde, eram baseados em dados desactualizados e encontravam-se desfasados da realidade operacional da empresa e dos poderes que se jogam a este nível e a inaptidão de perceber o essencial da realidade competitiva, foram as principais críticas formuladas a este modelo.

Ora, as organizações de hoje movem-se em ambientes fortemente turbulentos, onde o tempo é uma variável crítica, estão sob uma enorme pressão da sociedade para a obtenção de resultados e é desta que brota o essencial do valor que justifica a sua existência. Por outro lado, as organizações e as pessoas já não se estruturam em torno de silos funcionais verticalizados e entre aqueles que planeiam versus os que executam.

O resultado desta aposta no país é conhecido. Inexistência de liderança, levando a que a ideia inicial de agregação em torno do tópico “Desenvolvimento Sustentável” fosse transformada, pelo realismo político, na do poder a quem consegue realizar mais em cada área funcional e a contento dos lobbies mais fortes (pelo menos até se ter decretado que estávamos em crise); carência e não aceitação de ideias inovadoras que limitassem a afectação da maioria dos recursos a grandes projectos públicos, atrofiando ainda mais uma sociedade já de si demasiada dependente do Estado e adiando a alteração do padrão competitivo e de inovação da economia e do território; incapacidade de executar atempadamente os programas comunitários, logo de injectar dinheiro na economia quando este era mais necessário nestes tempos de crise. E mesmo no âmbito do Ministério do Ambiente, até a liderança pelo grande ícone das políticas Alterações climáticas / Energias Renováveis foi tomada por outros, neste caso o Ministério da Economia, o que lhe permitiu escamotear o grande vazio em que se tinha tornado a política deste Ministério.

Estamos prestes a começar um novo ciclo de Governação do País e será interessante ver qual a evolução que se irá dar neste domínio. Mas temo que tenhamos apenas o primado do realismo e do curto prazo, garantindo que o essencial do que está a andar se faz e de uma forma financeira tolerável. Estratégia, é algo muito complexo para os tempos que correm.

ciclovias em Lisboa


Local: Avenida Colégio Militar, em frente à CAP, Benfica, Lisboa.
Data: 9 de setembro 2009
Comentário: Como a Guarda precisa de limpa-neves, Lisboa irá precisar de limpa-carros, para manter as ciclovias desimpedidas. Espero que os limpa-carros tenham daquelas pás muito grande à frente...

Henk Feith