
Miguel Rodrigues diz-me que o que eu digo sobre a conservação do lince é diferente do dizem os muitos especialistas de vários países que trabalham sobre o assunto.
E acrescenta que gostaria de me ver explicar o que digo ao coordenador do Cat Specialist Group da IUCN, Urs Breitenmoser.
Como exemplo acrescenta um link que não consegui pôr a funcionar mas que penso que conduziria ao artigo "The use of sighting data to analyse Iberian lynx habitat and distribution", de Luis Palma, Pedro Beja e Miguel Rodrigues, sendo que o Miguel considera a competência e idoneidade dos dois primeiros como inquestionável.
Resumindo, Miguel usa argumentos de autoridade para sustentar os seus pontos de vista.
Quero por isso começar por dizer com toda a clareza que não tenho o menor respeito por este tipo de argumentos. E acrescento que pelo menos a idoneidade de uma das pessoas citadas é para mim perfeitamente questionável.
Acresce que não faço a menor ideia do que saberá Urs Breitenmoser sobre a campanha do trigo em Portugal ou sobre o erro crasso, embora comum, de considerar que a dinâmica da paisagem do sobreiro é essencialmente a mesma da dinâmica da paisagem da azinheira. Ou ainda o que saberá sobre a evolução do pastoreio em Portugal. Acredito que saiba muito, mas não é com certeza o facto de ser especialista de "gatos" que automaticamente lhe dará autoridade para não ser contestado nestas matérias que são essenciais para a discussão da conservação do lince.
Se as questões em que eu deveria ouvir mais os especialistas são as da sensibilização, direi que é normal que quem esteja envolvido na conservação de pumas, tigres, leopardos, leões e outros que tais, com uma longa história de relação conflitual com o homem (por ataque directo, ou por ataque ao gado) esteja muito atento à necessidade de comunicação associada a programas de conservação destas espécies, em especial se se tratam de reintroduções. Mas simplesmente nada disso se aplica ao lince ibérico que nunca teve nenhuma história de conflito com as pessoas.
Abandonemos pois os argumentos de autoridade e concentremo-nos nos argumentos de substância sobre a evolução populacional do lince.
O que não falta hoje são habitats de matos mediterrânicos. O que não falta são habitats favoráveis ao lince. Argumenta o Miguel que se o único factor de regressão do lince fosse o coelho, ele apareceria onde existe abundância de coelho, o que também não acontece.
Passando por cima do facto de eu preferir falar de factor crítico em vez de único factor, convém naturalmente saber que o lince não aparece em qualquer lado de geração espontânea.
Para que existam linces, é preciso condições para uma população estável de linces ou populações dadoras que estejam em contacto com as áreas de abundância de coelho.
Ora argumentar que hoje existem reservas de caça, e pode acrescentar-se, campos de golfe, com boas densidades de coelho sem que exista lince para demonstrar que há outros factores a actuar, como o habitat, é omitir que a contracção das populações foi fortíssima e que as populações remanescentes ficaram profundamente fragilizadas, sendo portanto populações fracamente dadoras.
O que impede qualquer cenário de colonização rápida de áreas com boa densidade de coelho.
Testemos a hipótese de que esta fortíssima contracção das populações de lince se deveu ao que o plano de acção para a conservação do lince caracteriza nesta frase: "O matagal mediterrânico tem vindo a desaparecer progressivamente ao longo dos últimos anos.".
Esta afirmação é um puro disparate ou uma inutilidade para a discussão da conservação do lince dependendo da escala do tempo a que diz respeito.
Avaliemos a evolução dos sistemas, para simplificar comecemos no Sul e depois alarguemos (para quem queira uma leitura complementar aconselho, por exemplo,
esta referência).
Até meados, quase fim do século XIX, o Alentejo era em grande medida brenhas e charnecas sem fim. Não sabemos nessa altura como estavam as populações de lince.
Entre os fins do século XIX e meados do século XX há uma progressiva diminuição destas brenhas e charnecas, substituídas por montados, vinhas, olivais e campos de cultivo, em especial em consequência da campanha do trigo, hectares e hectares de áreas de mato, montado, olival, vinha e maninhos vários foram arroteados para a produção de trigo, incluindo grande parte das serras algarvias. Não existem notícias de grande preocupação com o lince, cuja área de distribuição ainda incluiria as dunas de mira, o vale do Sado provavelmente até Alcácer, ou a serra de Aire, perto de Fátima onde o último lince comprovadamente morto na área o terá sido nos anos 80 do século XX (na mais antiga das hipóteses, nos anos 70).
De meados do século XX até hoje, com um breve interregno em meados dos anos 70 com a reforma agrária, a situação inverteu-se e os matos, montados e pastagens ocuparam áreas imensas que temporariamente tinham sido arroteadas para o trigo. Ora é exactamente nesta altura de nova expansão dos matorrais mediterrânicos que uma profunda e muito rápida contracção das populações de lince se dá.
Devo dizer que as análises de evolução do uso do solo que participei para o Alvão e para o PNSAC (neste caso com recurso a matrizes de Markov que permitem restringir bastante a infuência dos preconceitos de quem faz o estudo), são coerentes com este padrão de evolução da paisagem (com diferenças claro, mas não relevantes para esta discussão).
O que aconteceu entretanto? Nos anos 50 a mixomatose chega à Europa, dizimando as populações de coelho e fragilizando as populações de lince. Quando parecia haver alguma esperança de recuperação, a doença hemorrágica viral, ainda mais agressiva, aparece nos anos 90 na Península, o que coincide temporalmente com segunda e fortíssima contracção das populações de lince. Estima-se que hoje a população de coelho seja de 5 a 10% da população de há cinquenta anos, quando se chegavam a encontrar densidades de 40 coelhos por hectare (hoje procuramos desesperadamente áreas com densidades de 7 coelhos por hectare, considerado o limiar mínimo para sustentar uma população reprodutora de linces).
Perante este quadro gastar recursos a fazer flores com o matorral mediterrânico e dizer que o lince precisa de zonas tranquilas e isoladas e coisas do género a mim não me convence.
Digam os maiores especialistas do mundo o que quiserem.
No mundo da ciência é importante avaliar todos os pequenos detalhes das explicações do mundo.
No mundo da gestão, e as políticas de conservação são do domínio da gestão e não do domínio da ciência, o fundamental é aplicar os recursos no que é mais eficiente para atingir os resultados que se pretendem.
O que explica que muito bons cientistas com frequência não sejam nem bons gestores, nem bons políticos.
E do que lince precisa agora é mais de boa gestão e boas políticas que de uma ciência obcecada com cada detalhe da explicação das coisas.
henrique pereira dos santos